Não estamos de volta a 1995

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Foto: Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem, via Jogada Ensaiada

Está circulando uma historinha de que, hoje, São Paulo, Flamengo, Grêmio, Atlético-MG e Internacional têm os mesmos técnicos que tinham em 1995. Não é bem assim. Os cinco técnicos em questão (respectivamente, Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, Luís Felipe Scolari, Levir Culpi e Abel Braga), de fato, treinaram tais clubes em algum momento de 1995, mas não todos ao mesmo tempo.

No caso de Muricy Ramalho, ainda há uma “forçação” de barra, porque o técnico do São Paulo naquele ano ainda era Telê Santana, que só deixaria o cargo quando de sua isquemia, em fevereiro do ano seguinte. Ele assumia o comando do time como interino, durante as férias do treinador oficial.

No dia 22 de julho, ele comandou o São Paulo em um jogo para cumprir tabela contra o Guarani. Telê Santana não se dispôs a viajar até Campinas. Também comandou o time em outras partidas ao longo do ano, nas férias de Telê e no comando do “Expressinho”, como já havia feito no ano anterior. Mas o técnico de facto era Telê. Ninguém diria que Muricy era o técnico do São Paulo. No máximo, o do “Expressinho”, que já nem fazia tanto sucesso em 1995.

Àquela altura, Vanderlei Luxemburgo não era mais o técnico do Flamengo, pois tinha sido demitido em 13 de julho, após desentender-se com Romário — em 11 de agosto, ele assumiria o Paraná Clube. Já Levir Culpi tinha sido campeão mineiro com o Atlético, em 4 de junho, porém foi demitido pouco depois, devido a críticas à diretoria. Ele assumiria a Portuguesa em 10 de agosto, para o Campeonato Brasileiro.

Luís Felipe Scolari, por sua vez, estava no meio da vitoriosa passagem que teve pelo Grêmio, entre 1993 e 1996. Abel Braga tinha assumido o Internacional em algum ponto entre junho e julho, mas não consegui determinar a data exata.

Assim, o “meme” criado serve como curiosidade, mas é preciso alguma boa vontade para aceitá-lo como notícia. Sim, os cinco técnicos treinaram os mesmos times de hoje em dia em 1995, mas não ao mesmo tempo. E, claro, Muricy não era nem o técnico oficial do São Paulo, o que só ocorreria no ano seguinte, após a isquemia cerebral sofrida por Telê.

Quando Roger Wollstadt foi ao Morumbi

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Foto: Roger Wollstadt/Flickr

O americano Roger Wollstadt não é são-paulino, mas esteve no Morumbi em pelo menos uma ocasião durante suas visitas à cidade, entre 1971 e 1974. Há alguns anos, ele compartilhou no Flickr as fotos que tirou nessa época, e o Martin Jayo, do excelente blog Quando a Cidade Era mais Gentil, encontrou-as e compartilhou com seus leitores. Foi lá que achei a preciosidade acima. (No fim desta postagem, coloquei uma foto recente, tirada mais ou menos do mesmo ângulo.)

Imediatamente, fiquei imaginando que jogo seria esse. Felizmente, Roger parece ser bastante metódico e colocou as datas, supostamente exatas, em todas as suas fotos. Se a data que ele inseriu nessa foto estiver correta, foi num sábado à tarde, 8 de maio de 1971, quando o São Paulo enfrentou o Guarani e venceu por 2 a 0, diante de 13.409 pagantes, público baixo para os padrões da época.

Ao contrário de outros jogos, neste aqui não houve dúvidas sobre a atuação são-paulina, como se percebe pelas manchetes d’O Estado (“São Paulo mantém a liderança com facilidade”) e da Folha (“São Paulo vence o Guarani sem fazer força”). O São Paulo entrou em campo com Sérgio; Pablo Forlán, Lima, Jurandir e Gilberto Sorriso; Édson Cegonha e Gérson; Carlos Alberto, Terto, Toninho Guerreiro e Paraná. Roger viu gols de Paraná e Gérson, ambos no primeiro tempo.

O primeiro gol veio sem querer, com Paraná recebendo um lançamento de Gérson e ganhando na corrida de Osvaldo Cunha. O ponta cruzou a bola, mas Toninho não a alcançou. O goleiro Tobias (mais conhecido por sua passagem pelo sccp, alguns anos mais tarde) ficou parado, acreditando que o centroavante desviaria a bola; como isso não ocorreu, ela simplesmente passou e entrou no canto esquerdo, rente à trave.

Já o segundo veio em uma falta ensaiada. Mesmo próxima da área, o Guarani optou por colocar apenas Osvaldo Cunha na barreira. Em vez de chutar direto, Paraná atendeu o pedido de Gérson — que pôde ser visto das arquibancadas, de acordo com a Folha — e levantou a bola na área. O meia chegou antes de Tobias e apenas tocou na bola, mandando-a para dentro.

O São Paulo seguiu mandando no jogo e criou quase todas as jogadas de perigo até o apito final, incluídos aí longos período em que o time preocupou-se apenas em tocar a bola e gastar o tempo. O resultado manteve o São Paulo na ponta do Campeonato Paulista, com 21 pontos em treze jogos, seis pontos à frente da sep, que tinha dois jogos a menos, por estar disputando a Libertadores.

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Foto: reprodução de O Estado de S. Paulo

8/5/1971, 16h00
SÃO PAULO 2×0 GUARANI
T: Campeonato Paulista de 1971. E: Morumbi (São Paulo, SP). J: Armando Marques. P: 13.409 pagantes. R: Cr$ 93.601. G: Paraná (9/1T) e Gérson (35/1T). 
São Paulo: Sérgio; Pablo Forlán, Lima, Jurandir e Gilberto Sorriso; Édson Cegonha e Gérson; Carlos Alberto, Terto, Toninho Guerreiro e Paraná. Técnico: Oswaldo Brandão.
Guarani: Tobias; Osvaldo Cunha, Paulo Fraga, Amaral e Wílson; Flamarion e Paulo César; Carlinhos Patito, Zé Ito (Caravetti INT) e Clayton (Ladeira 20/2T). Técnico: Daltro Menezes.

Itaquera é longe

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"Sempre fui aos jogos, mas esse horário é um absurdo. Tive de sair quinze minutos antes, para pegar o Metrô e outra condução." Essas foram as palavras do aposentado Ariovaldo Inácio ao Estadão de hoje. Sim, muitos dos que “nunca iriam te abandonar” abandonaram o sccp no jogo de ontem, para poderem voltar ao conforto de suas casas sem maiores percalços.

Foi a primeira partida no Itaquerão disputada no horário imposto pela Globo, que implica em apito final próximo da meia-noite. Boa parte do público, que já ficou bem aquém da média das três primeiras partidas do clube por ali, foi embora sem ver o terceiro gol, marcado aos 43 minutos do segundo tempo, já que o Metrô tinha prometido fechar as portas da Estação sccp-Itaquera à 0h19 e as da Estação Artur Alvim à 0h21.

E, veja você, de acordo com o Estadão, o Metrô ainda deu uma “canja” de cinco minutos, fechando o portão de sua estação terminal da Linha 3-Vermelha à 0h24! (Vídeo da ESPN contesta essa informação.) Ainda assim, muita gente ficou na mão, reclamando que o Metrô “fecha muito cedo”. O problema é que o Metrô sempre fechou nesse horário — e sem “canja”! — e a Globo impõe jogos às 22 horas há duas décadas. Não houve nenhuma situação nova, a não ser, claro, a aberração de se ter um estádio particular financiado com dinheiro público.

Agora, os adeptos do mal estão reclamando do horário dos jogos noturnos. Agora, os adeptos do mal estão reclamando do horário de fechamento do Metrô. Mas, até poucas semanas poucos dias atrás, essas mesmas pessoas reclamavam quando alguém comentava que "Itaquera é longe". Fizeram, ora, até uma série de vídeos mostrando como supostamente seria mais rápido chegar ao Itaquerão do que ao Morumbi, que é muito mais próximo do centro.

Eu já fui a inúmeros jogos no Morumbi que começaram às 22 horas. Alguns deles não acabaram antes da meia-noite. Como todos sabem, a estação de metrô mais próxima (Butantã), fica a alguns quilômetros dali, sendo impraticável alcançá-la em menos de meia hora, e estou chutando baixo aqui. Há poucas linhas de ônibus que passam nos arredores. E ninguém nunca me viu saindo mais cedo por causa de trânsito ou condução — só devido a uma embolia pulmonar que me levaria à UTI. ;)

Uma parcela de são-paulinos deve deixar o Morumbi mais cedo em jogos às 22 horas, devido a problemas de condução, mas duvido que seja um contingente tão grande quanto o mar de gente que saiu do cover de impressora sem ver o último gol.

Já cheguei em casa à uma da manhã e até às duas. Talvez até eventualmente mais tarde (e eu nem sou o melhor exemplo nesse quesito). Muitas vezes, fui ao Morumbi sem saber como eu voltaria. Na maioria dessas vezes, caronas de amigos me ajudaram. Mas eu conheço razoavelmente bem o Morumbi, o que não é o caso da grande maioria dos adeptos do sccp que podem pagar mais de cem reais para assistir a um jogo em Itaquera. Não duvide que, para muitos deles, Itaquera é um bairro “perigoso”.

Agora, em matérias que falam sobre o ocorrido, vemos comentários como: “Vale lembrar que esse foi o primeiro jogo às 22 horas. Vocês acham que o governo municipal deixará de atender essa parte da população? Olhem o tanto de voto que essa parte da população representa, sem falar que a diretoria do sccp tem que estar atenta a isso, pois o público ficou abaixo da média ontem, sem falar na arrecadação que também ficou abaixo… Resolvam logo isso!”

Sim, agora querem resolver uma situação de décadas na base da canetada, como já fizeram, aliás, com a própria construção do estádio, com a palhaçada da "unificação de títulos" e que vão acabar fazendo até em relação aos naming rights do Itaquerão (“Vem pra Caixa você também, vem!”).

Está na hora de os seguidores do sccp decidirem: ou o estádio não é longe ou não há problemas com os horários de jogos e de fechamento do Metrô. Não há meio-termo.

Revisitando a entrevista de Juvenal Juvêncio

Vasculhando o meu gravador, encontrei a entrevista que Juvenal Juvêncio deu à ESPN Brasil em abril passado. Logo no começo da gravação (perdi o início do programa), o ex-presidente do São Paulo começou a falar sobre os técnicos brasileiros. Sua avaliação não soava como novidade na época, porque ele certamente não foi o primeiro a levantar tais questões.

Mas, ao longo de seu discurso, algumas frases chamaram a minha atenção, já que, embora realmente não sejam novidade, não costumam ser proferidas pelos dirigentes brasileiros, aparentemente sempre satisfeitos com o que está à disposição por aí.

É verdade que a falta de técnicos qualificados não é o único problema do futebol brasileiro. Nem Pep Guardiola, tido como o maior técnico da atualidade, resolveria sozinho os problemas atuais que assolam a seleção brasileira. Mas temos de lembrar que em momento algum da história do futebol por estas bandas a seleção foi campeã mundial com uma organização invejável. Muito pelo contrário: são três títulos com João Havelange como presidente da CBF e dois com Ricardo Teixeira. Ou seja, com alguma muita organização em campo, é perfeitamente possível conquistar um título.

Segue abaixo o trecho da entrevista de Juvenal em que ele fala sobre o mercado de técnicos no Brasil:

Primeiro que não tem no Brasil o chamado técnico. Tem uns treinadores aí. Isso não existe. No Brasil é uma coisa horrível. Não tem… não tem um cara… (…) Você contratava o cara, vinha o filho junto. E, se não viesse o filho, você não tem o técnico. O filho ganha não sei quanto. O filho não faz nada. Nada! Dá palpite, dá errado. O pai aplaude. É um desastre! Dá vontade de dar soco, é uma barbaridade, rapaz. Você põe para fora o filho, o pai vai junto! É um amadorismo enorme!

[André Plihal pergunta: Por que não tem técnico bom?]
Aqui no Brasil? Ah, não tem. Terá aí… pessoas! Porque tem o técnico também que, que acerta com o jogador, lá na coisa, aquelas coisas, né? O torcedor precisa saber o seguinte: o dirigente, ele tem que ser probo, mas é o seguinte: ele não pode ser bobo! Porque, senão, o técnico envolve ele de tal sorte, que ele quebra o clube! Ele copra aquele, porque não… [interrompe o pensamento] Segundo, precisa saber e… ter coragem. Em geral, o técnico olha para o banco, tem aquele cara que já foi na seleção brasileira, tem aquele que marcou gol na decisão da copa não sei do quê e tem um moleque. Quem que você acha que ele pega? Ele pega o cara que tem barba grande.

[Plihal pergunta: É um problema de formação de profissionais?]
Ah, nem forma, né? Eles surgem ao natural, os técnicos. O Brasil não tem nem escola para essas coisas.

A Copa do Mundo in loco

Eu não queria ficar sem ter ido a um jogo da Copa do Mundo no Brasil, possivelmente minha única chance de acompanhar in loco o maior evento esportivo do mundo. Mas o site da Fifa não colaborava, e a Copa começou sem eu ter a perspectiva de conseguir um ingresso. A página de venda de ingressos passou a ser destino diário, nos mais diversos horários, sempre com a esperança de que aparecesse alguma coisa disponível. Na primeira vez que apareceu, tive de desistir, por motivos logísticos. E a segunda demorou para aparecer.

Quando finalmente apareceu, havia quadradinhos verdes, indicando “grande disponibilidade”, para os três tipos mais caros de ingresso. E logo para a decisão do terceiro lugar, cujos ingressos tinham os mesmos preços das quartas de final — ou seja, mais caros que os da primeira fase e das oitavas. Considerando minha experiência prévia, fui direto no mais caro, imaginando que ele demoraria um pouquinho mais a se esgotar, dando a mim preciosos segundos para garantir minha compra. Funcionou. Comprei dois, mesmo sem saber ainda quem iria comigo na empreitada.

Ainda não se sabia quais seriam os times que participariam do “meu jogo”, pois ainda estávamos na última rodada da primeira fase. Eu só torcia para não ver o Brasil ali. Não só porque isso significaria que a Seleção estaria alijada da briga pelo título, mas também porque o Brasil eu já assistira no estádio por três vezes. Independentemente de quem fosse jogar, eu tinha de dar um jeito de ir a Brasília para o jogo e voltar a tempo de acompanhar a final, no dia seguinte.

A passagem de ida, na mesma manhã da partida, foi razoavelmente fácil de conseguir. Não foi o melhor dos preços, mas não estava exorbitante. O problema estava sendo a volta. Não havia mais nenhuma opção disponível para depois do jogo, e as opções do dia seguinte não resolviam: os poucos voos que saíam de manhã tinham no mínimo uma conexão, só chegavam a São Paulo no meio da tarde e, ainda por cima, custavam, no mínimo, 1,3 mil reais; os voos da tarde eram bem mais baratos, mas obrigar-me-iam a perder ou o primeiro ou o segundo tempo da final.

Minha opção acabou sendo o ônibus. Peguei o último horário entre os disponíveis, 21h30 de sábado, imaginando que eu só poderia ter algum problema caso a decisão do terceiro lugar fosse para a prorrogação, algo que só aconteceu uma vez na história. Seriam quinze horas de viagem, mas eu chegaria a São Paulo na hora do almoço.

Dia de jogo, partimos, Palmer e eu, para Brasília. O voo saiu um pouquinho atrasado, mas chegou pontualmente à capital do País, onde eu pisaria pela primeira vez na vida. Pegamos o ônibus executivo até as proximidades do estádio e começamos a matar o tempo com fotografias e cerveja. Mais perto da hora do jogo, rumamos ao Mané Garrincha, aonde entramos com nossas mochilas, que continham um iPad, livros e revistas, roupas sobressalentes e itens de higiene pessoal. As perigosas maçãs que o Palmer carregava, entretanto, foram confiscadas na entrada.

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A primeira decepção veio com a primeira cerveja comprada já dentro da área gerenciada pela Fifa. Não me refiro ao preço (escorchantes dez reais por uma Brahma, treze para uma Budweiser), que já era sabido, mas ao fato de que os copos das duas marcas não continham a identificação do jogo. Apenas os copos de refrigerante traziam um “Decisão do terceiro lugar” escrito. E eles não tinham o mesmo formato dos copos de cerveja, então não se encaixavam direito…

A segunda decepção foi a atuação da seleção brasileira em campo, como  já previsto após o desastre de 7 a 1, quatro dias antes, que a mandou para a partida de Brasília. Mas vou poupá-los da descrição desses acontecimentos e ater-me-ei aos detalhes da experiência de um jogo de Copa do Mundo no estádio.

As arquibancadas lembravam o que vi no PNC Park, estádio de beisebol do Pittsburgh Pirates, nos Estados Unidos, embora com menos espaço entre as fileiras, o que nos obrigava a periodicamente levantar de nossos assentos para dar passagem. Mas estávamos com uma vista privilegiada, a apenas treze fileiras do gramado, quase no meio-de-campo. Na hora dos hinos, cheguei a aparecer na transmissão da televisão, o que só fui perceber graças ao Patury, que encaminhou a foto da tela pelo WhatsApp.

Como bom são-paulino que sou, fui com minha camisa tricolor e aproveitei cada oportunidade para demonstrar toda a minha apreciação pelo Oscar quando ele estava razoavelmente próximo — recebi diversos olhares de reprovação de pessoas sentadas nas proximidades, que provavelmente nunca pisaram num estádio durante outros eventos. O telão do estádio, surpreendentemente visível, trazia até o tempo de jogo, embora ele ficasse parado durante os acréscimos, não entendi por quê. Até replays de jogadas sem polêmicas eram mostrados.

Acho que, por essa breve descrição, é possível perceber que o clima de um jogo de Copa do Mundo no estádio tem muito mais a ver com um show de rock do que com um jogo de futebol “de verdade”. Falo isso com conhecimento de causa, não apenas pelas minhas inúmeras visitas ao Morumbi, mas também pelas muitas vezes que fui assistir a jogos de divisões inferiores no Nicolau Alayon. Ainda não tenho convicção se o “clima de show” é melhor ou pior.

Finda a partida, era hora de voltar para casa, com escalas. Saímos andando até a rodoviária do Plano Piloto, que é um terminal de ônibus e não a rodoviária. Esta fica a alguns quilômetros de distância dali, percorridos de metrô até a Estação Shopping. Despedi-me do Palmer antes de embarcar no metrô. Ele seguiria para o aeroporto, para uma romaria bastante interessante: voo às 23 horas para Salvador, aonde chegaria à uma da manhã; cinco horas de espera no aeroporto soteropolitano; voo para o Rio de Janeiro às seis; chegada às oito; Maracanã; e viagem de busão para São Paulo.

Minha romaria não envolvia a final, mas começou já na rodoviária. Muitos falam que não houve caos nos aeroportos, e não houve, mesmo. Mas o que presenciei na rodoviária foi um grande despreparo. Minha passagem já tinha sido comprada pela internet, mas, mesmo assim, eu tinha de passar no guichê da Real Expresso para retirar meu bilhete e pagar a taxa de embarque (!).

Obviamente, com tantos ônibus saindo após o jogo, eram centenas de pessoas que tinham de retirar seus bilhetes. O resultado foi uma grande fila, que prejudicou muitas pessoas que chegaram em cima da hora para seus respectivos embarques. Vi várias pessoas que já tinham perdido seus ônibus tentando arrumar uma vaga em alguma saída na manhã seguinte e nem sabiam onde passariam a noite. Eu, felizmente, tinha algum tempo hábil e consegui retirar meu bilhete com uns quarenta minutos de antecedência.

Mas jantar ali não foi possível. As poucas opções estavam lotadas, e até o Subway tinha uma fila de mais de cinquenta pessoas. Tomada para carregar o celular? Só uma ou outra estava disponível, nas proximidades dos banheiros, mas todas tinham uma fila que só não era maior porque eram necessários muitos minutos para carregar cada aparelho.

As plataformas de embarque não eram anunciadas. A única coisa que me informaram foi que seria em uma plataforma entre a 10 e a 15. Assim, eu deveria prestar muita atenção onde o ônibus com o meu horário parasse. Ele chegou por volta das 21h05, 25 minutos antes de seu horário de partida. Horário previsto, bem entendido, porque ele só saiu da plataforma às 21h43.

Ainda assim, a viagem não foi iniciada de imediato, pois ele ficou na saída da rodoviária até as 22 horas, quando havia cerca de dez ônibus para formar um comboio, incluindo aí ônibus de outros horários. Ou seja, os ônibus das 21h15, 21h30, 21h45 e, talvez, 22 horas, saíram ao mesmo tempo. Segundo o motorista, era uma questão de segurança. O número parece exagerado, mas ele garantiu que “90%” dos ônibus fora de comboios são assaltados por aquelas bandas.

Passava pouco das duas da manhã quando chegamos aos arredores de Catalão, no interior de Goiás. Nosso ônibus saiu da estrada e passou por várias ruazinhas da cidade, em velocidade meio incompatível. Quando ele embicou na parada, acho que percebi por quê: todos os outros ônibus estavam no sentido oposto da via, fazendo fila para estacionar. Nosso motorista, por ter vindo pelo outro lado, chegou primeiro. Não entendi bem a intenção, porque a viagem ainda prosseguiria em comboio até Uberaba, a parada seguinte.

A parada de Catalão era pitoresca, no sentido de estar rolando uma balada ali, em uma cervejaria que fazia parte do complexo. Na loja propriamente dita, havia pouca variedade de produtos, mas, como aceitavam cartão de crédito, pude improvisar um jantar.

Para economizar bateria, mantive o celular em modo avião durante toda a viagem, liberando apenas nas paradas, quando eu podia tuitar brevemente e dar check-ins no Foursquare em lugares onde possivelmente nunca mais porei os pés. Em Uberaba, às 5h25, um café da manhã também foi improvisado, o que foi bom, pois a parada seguinte, em Ribeirão Preto, às 7h50, também não tinha grandes opções.

A última parada foi em Limeira, às 10h30. Adentramos a Marginal Tietê às 12h15 e chegamos à rodoviária do Tietê às 12h35, depois de algum trânsito nas imediações. Minha esposa foi buscar-me, o que salvou o dia. Eu não estava nas melhores condições físicas para encarar uma viagem de metrô, depois de uma noite em que só tirei alguns cochilos, cada um com não mais que quinze ou vinte minutos. Tudo isso culminou numa febre que passou de 38 graus ao longo da tarde e da noite. Mas aí a minha aventura já tinha acabado.

Tudo o que vier à mente sobre o São Paulo.

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